Turquia: apelo dos cristãos para a moderação, não à vingança

O Presidente Erdogan prossegue a dura resposta ao frustrado golpe militar do último final de semana, promovendo um verdadeiro expurgo da vida pública de opositores ou de suspeitos de terem ligação com pregador Fethullah Gulen, auto-exilado nos Estados Unidos.

Na quarta-feira decretou a Lei Marcial no país por três meses. Chegam a quase 10 mil os militares presos, 8 mil policiais e funcionários do Ministério do Interior afastados, 30 governadores licenciados, 2.800 juízes removidos do cargo, 15.200 funcionários da educação demitidos, 1.577 entre Decanos e Reitores de Universidades demitidos de sesu cargos pelo Conselho para a Alta Educação.

Também 21 mil professores de escolas particulares tiveram sua licença para lecionar suspensa. Foram fechadas 24 emissoras de rádio, consideradas apoiadoras de Gulen. Sob investigação, estão cerca de 370 funcionários da TV pública TRT.

O setor religioso também não ficou imune à verdadeira "limpeza" que está sendo feita pelos órgãos de segurança. A Dyanet - a presidência turca para os Assuntos Religiosos, máxima autoridade islâmica que depende do Estado - afastou 492 Imames e docentes de religião - suspeitos de serem cúmplices de Gulen - e proibiu funerais islâmicos para golpistas mortos.

Mas, como os cerca de 100 mil cristãos na Turquia, dos quais 30 mil católicos, estão vivendo estes dias de grande tensão e violência?

"Estamos serenos, mas também um pouco inquietos pela evolução da situação. Esperamos a solução para estes acontecimentos, os pontos de interrogação não faltam", afirma o Arcebispo Latino de Esmirna, Dom Lorenzo Piretto.

A grande maioria da população cristã existente na Turquia é formada por estrangeiros residentes no país. Poucos são os nativos turcos de fé cristã. A estes somam-se os refugiados sírios e iraquianos, fugidos da guerra em seus países. Por ironia do destino, Esmirna foi uma das primeiras terras a acolher a pregação apostólica. As sete Igrejas às quais são endereçadas as Cartas que abrem o Apocalipse são todas da Península anatólica. Os primeiros sete Concílios Ecumênicos realizaram-se naquelas terras. Antioquia foi o lugar onde, pela primeira vez, os seguidores de Jesus foram chamados de "cristãos".

"Não cabe a nós decifrar ou interpretar o que está acontecendo - explica o Arcebispo. Nós esperamos e rezamos para que a tensão diminua, que quem está no Governo hoje use de moderação. Tensões novas, ou pior, vinganças despropositadas, não servem para a Turquia. Esperamos em um clima de reconciliação e paz".

Palavras que adquirem maior significado, quando relacionadas aos ataques ocorridos durante a noite do golpe, contra uma igreja protestante em Malatya - palco do massacre em 2007 de três cristãos - e conta a Igreja católica de Santa Maria, em Trabzon, a mesma onde em 2006 foi assassinado o sacerdote italiano Padre Andrea Santoro.

O Vigário Apostólico na Turquia, Rubén Tierrablanca Gonzales, fala de “tempos difíceis de compreender”. “Estamos confusos, a situação de tensão nos deixa abalados, afirmou. Este clima gera agressões e violência. Em situações do gênero acontece também que tenha quem se sinta autorizado a danificar as Igrejas, como a do Padre Andrea Santoro, em Trabzon e em Malatya”.

“Como líderes religiosos, temos denunciado e violência e exortado à moderação”, acrescenta o franciscano, que não deixa de observar que “as pessoas têm medo e isto se percebe andando pela cidade. Basta caminhar por Istambul para entender que não é a cidade de sempre, não é a vida normal. Para que volte ao normal, teremos que esperar muito”.

Nesta situação de “incerteza e confusão – conclui o Vigário – somos chamados como Igreja a viver no dia-a-dia o diálogo, a proximidade, a fraternidade e a reconciliação. Este é o melhor serviço que podemos prestar à Turquia”.

(JE/Sir)
Fonte: Radio Vaticano